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@gabrielkogan

25. Fico pensando quantos edifícios de Niemeyer poderiam ter entre esses 100? Uns 100? Pouca atenção foi dada nos últimos anos para sua fase de exílio, de auto exílio. Centro Cultural de Le Havre, Partido Comunista em Paris, Mondadori em Milão. Se as obras de Oscar frequentemente derrapam nos detalhes, aqui pode-se ver um niemeyer pleno, impecavelmente desenhado e construído em todas as escalas; uma obra projetada da implantação ao detalhe. A estrutura metálica dos volumes programáticos internos, atirantados em um exoesqueleto de concreto, encontra ancoragem e estabilidade em dois volumes de circulação vertical. Por fora, as arcadas do Itamaraty ganham ritmo musical. Os vãos irregulares denunciam uma permissão para a irracionalidade estrutural (que aliás seria a tônica de Niemeyer após meados dos anos 80; aqui ainda estamos nos 70). Fotos da maquete em uma primeira versão do projeto mostram a Mondadori com curvaturas também em planta no volume principal, como uma cobra rastejando. Acredito que cliente, engenheiros e arquitetos abandonaram essa ideia pela complexidade construtiva: imaginem vocês a dificuldade de executar o plano curvado da convergência do arco interno com as arestas ortogonais da fachada e com uma terceira curvatura resultado da sinuosidade em planta. Ao longo de 100 dias, postarei aqui no Instragram fotos de 100 edifícios dos últimos 100 anos. Bati essas fotos ao longo dos últimos 10 ou 15 anos, com câmeras e celulares, e padronizarei todas em Preto e Branco. A ordem das publicações será randômica, sem organização de tempo/espaço. #100edificiosdosultimos100anos #100buildingsfromthelast100years

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23. Nada é original. Tudo é original. No centro do pátio de uma antiga distilaria na periferia de Milão, Koolhaas inseriu um novo edifício, seccionando a área livre em dois pátios. Nada é original: uma das fachada dessa construção tem revestimento espelhado, high tech; um paralelepípedo puro repousando sobre o jardim industrial metafísico, dechiriquiano. A emulação da arquitetura se dá pelo reflexo, pela desmaterialização de um edifício que nega sua existência mimitizando os prédios mais antigos; estratégia esta que se aproxima da estética da arquitetura do século 21 e suas torres genéricas (nesse caso, uma "torre horizontal", para usar um termo cunhado pelo próprio holandês). Essa fachada parece um corte, como se um antigo edifício tivesse sido fatiado e seu recheio fosse puro espelho, massa reflexivel. Tudo é original: no outro lado, o mesmo edifício tem uma fachada com falsos frisos e pilares que emulam matericamente as construções já existentes no conjunto. A nova construção tem todas as características daquela arquitetura fabril dos 1900, com exceção de um rasgo do mesmo espelho que explicita a falsificação. Esta estratégia por sua vez dialoga - com divertida literalidade - com a arquitetura pós-moderna historicista italiana. Koolhaas inventou duas formas diferentes de confundir os visitantes (e inclusive arquitetos) sobre a presença, originalidade e idade daquele edifício. Em essência afirma: tanto faz - para a arquitetura (e por extensão para o patrimônio historico) ou mesmo para os usuários - se esse edifício é novo ou não; que se danem as cartas de Atenas e de Veneza; o que importa é o projeto, os novos usos conferidos ao conjunto, o senso do todo, a nova materialidade e espacialidade, a nova atmosfera, o detalhamento dos edifícios e a paleta de materiais; o quê importa mesmo é a nova escala dos pátios. Sobretudo entre os que sofrem da Síndrome de Stendahl, há quem chore ao visitá-los pela primeira vez. Pessoalmente, acho essa reação um pouco exagerada. #100edificiosdosultimos100anos #100buildingsfromthelast100years at Fondazione Prada

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22. Casa Butantã: criamos espaços e somos moldados por eles; como uma relação dialética, como um processo infinito, como uma pergunta sem resposta, como um espinho no meio da palma da mão. Minhas arquiteturas favoritas nunca são neutras e sim indicam usos cotidianos que nos tiram das zonas de conforto; nos incomodam profundamente. Um edifício impecavelmente confortável, perfeitamente construído e totalmente funcional não existe. Se existisse seria uma péssima arquitetura, tediosa, insossa, burocrática; assim como são as aquelas pessoas sem charme, sem sal e sem posições. A Casa Butantã de Paulo Mendes da Rocha (1964) impõe desafios constantes para aqueles que a usam. As paredes não tocam o teto e assim não há separação entre os quartos, banheiros, sala, cozinha. Vazam odores e ruídos. Falta privacidade e isolamento. As divisórias parecem meras formalidades e todos os espaços se configuram, na prática, como um único. A vida comunal. O sexo passa a ser compartilhado dentro do núcleo doméstico. Como uma crítica aos valores pudícos burgueses, curiosamente, Paulo parece regredir a uma espécie de estágio pré-burguês, pré-moderno, quando todos habitavam o mesmo espaço e inclusive comiam de um mesmo prato. Não seria a noção da casa como um ninho confortável, amável, uma invariável ilusão? Sempre pergunto em aula para os meus alunos se eles morariam nessa casa. Bem... A pergunta parece levar a outra: com quem? Ao longo de 100 dias, postarei aqui no Instragram fotos de 100 edifícios dos últimos 100 anos. Bati essas fotos ao longo dos últimos 10 ou 15 anos, com câmeras e celulares, e padronizarei todas em Preto e Branco. A ordem das publicações será randômica, sem organização de tempo/espaço. #100edificiosdosultimos100anos #100buildingsfromthelast100years

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19. Arquitetura é contar histórias. A narrativa se desenvolve como projeto e os percursos primeiro como cenas imaginadas, depois como caminhos no espaço. Em diálogo, compreender o passado e resignificá-lo. Essas dimensões da relação história-arquitetura se revelam no Museu do Castelvecchio. Scarpa se coloca como agente de seu tempo e redesenha alas inteiras do maior monumento histórico do Veneto. Quantas histórias pregressas se desenrolaram por entre aquelas espessas paredes do século XIV? Quantas invasões napoleônicas? Quantos intrigas palaceanas naqueles jardins e torres? Quantas histórias ainda viriam a se desenrolar? Um castelo transformado em museu. Um museu transformado em castelo. A arte organiza um novo percurso a partir da essência das obras. Formulando novas relações para o espaço, a arquitetura insere novas camadas de história. Ele nos pegou na estação. Alguns prédios são belos de serem visitados, esses se tornam ainda melhores se explicados, contados, explicitados. Tivemos uma aula no museu, sobre Scarpa, sobre Castelvecchio, sobre arquitetura, sobre história e suas dimensões. Tornamo-nos amigos. Quis que meus outros amigos estivessem por lá, nessa aula. Achei que poderia retribuir com uma visita ao Sesc Pompeia. De 2015 a 2018. Visitamos o Sesc Pompéia. Ao longo de 100 dias, postarei aqui no Instragram fotos de 100 edifícios dos últimos 100 anos. Bati essas fotos ao longo dos últimos 10 ou 15 anos, com câmeras e celulares, e padronizarei todas em Preto e Branco. A ordem das publicações será randômica, sem organização de tempo/espaço. #100edificiosdosultimos100anos #100buildingsfromthelast100years

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18. Uma única construção como síntese do conhecimento humano. Um espaço genérico e abstrato à espera dos saberes. Uma espécie de torre de Babel horizontal: em vez de um arranha céu babilônio, a sequência repetitiva e moderna de pórticos de concreto em linha contínua por 700 metros; linha levemente arqueada. A estrutura se mostra como ruína da cidade construída às pressas, da teoria concisa e sempre inacabada, do estado de precariedade de nossa existência. Os corredores-varandas do galpão linear do ICC da UNB sintetizam tanto universidade como unidade quanto o lugar de encontro. O projeto de Niemeyer e Lelé logo ganhou o apelido de minhocão; mas talvez seja o buraco da minhoca, um túnel pelo conhecimento que nos leva para outro tempo-espaço. Esse talvez seja meu lugar favorito em Brasília (mais até do que o Itamaraty) porque contém justamente o paradoxo da própria cidade, por um lado a finitude (a universidade-prédio, as solenes pedras polidas das fachadas, o desenho preciso da cidade-projeto, o senso de eternidade dos palácios iluminados) por outro a transitoriedade (os ferros expostos do pórtico inacabado, o Núcleo Bandeirantes e os assentamentos, o canteiro de obras a ser desmotado, o cachorro quente na esquina inexistente). Não seria essa também a melhor descrição da ciência? Ao longo de 100 dias, postarei aqui no Instragram fotos de 100 edifícios dos últimos 100 anos. Bati essas fotos ao longo dos últimos 10 ou 15 anos, com câmeras e celulares, e padronizarei todas em Preto e Branco. A ordem das publicações será randômica, sem organização de tempo/espaço. #100edificiosdosultimos100anos #100buildingsfromthelast100years

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17. Para cada viga, uma tensão, uma transmissão de força. A própria gravidade materializada. Arquitetura e engenharia, essas invenções humanas para vencer a força da gravidade. A construção de um abrigo capaz de superar, em escala o vestuário. Primeiro vem a casa mais aprazível que a caverna, depois a ponte, o templo e o edifício público. Olhar para uma estrutura de Nervi é visualizar essas forças da natureza em tensão ao longo dos anos, observá-las a olhos nus, seja na forma de hangares, seja na forma de ginásios esportivos: Palazzetto dello Sport, Roma, 1957. Ao longo de 100 dias, postarei aqui no Instragram fotos de 100 edifícios dos últimos 100 anos. Bati essas fotos ao longo dos últimos 10 ou 15 anos, com câmeras e celulares, e padronizarei todas em Preto e Branco. A ordem das publicações será randômica, sem organização de tempo/espaço. #100edificiosdosultimos100anos #100buildingsfromthelast100years

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16. Robin Hood... Robin Hood Gardens, na periferia de Londres, em uma área de intensa especulação imobiliária, está em processo de demolição, para satisfação dos empreendedores e desespero daqueles que tinham na obra máxima do brutalismo inglês uma casa digna. Habitarão um lugar ainda mais distante, com unidades menores e sem a qualidade de desenho proporcionada pelo projeto do casal Smithson. Robin Hood. Não teria a arquitetura moderna surgido para suprir a habitação das massas, desabrigadas após as sucessivas destruições das cidades europeias no século 20? Não seriam os desabrigados hoje as populações de imigrantes e refugiados das áreas mais pobres dessas mesmas cidades do velho continente? Então não seriam esses edifícios "degradados" (esse eufemismo dissimulado) a arquitetura moderna que deu certo e não a que deu errado? A arquitetura moderna está longe de ser um Robin Hood, mas pensando bem... Se ela tivesse dado muito certo, muito certo mesmo, ela poderia ter sido. Ao longo de 100 dias, postarei aqui no Instragram fotos de 100 edifícios dos últimos 100 anos. Bati essas fotos ao longo dos últimos 10 ou 15 anos, com câmeras e celulares, e padronizarei todas em Preto e Branco. A ordem das publicações será randômica, sem organização de tempo/espaço. #100edificiosdosultimos100anos #100buildingsfromthelast100years

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14. No meio dos jardins da ilha de San Giorgio Maggiore, uma intervenção delicada e poderosa: o mínimo para organizar o espaço. Não há praticamente construção, há arquitetura. E a pouca matéria se dissolve entre reflexos. A estrutura em balanço, balança com o vento; refletindo as folhas das árvores também balançadas pela brisa da laguna. Cada coisa vibra em seu tempo. O espaço se revela nesses descompaços, nesses tempos sincopados do movimento das coisas e pessoas. Preciso partir, a passagem do vaporeto vai expirar. Nada é trivial em Veneza (essa realização máxima da existência humana). Uma capela da Carla para redimir a viagem, para redimir o evento, para redimir a arquitetura, para nos redimir. O tempo fora do jardim é outro. Por agora, preferia ficar mais. Ao longo de 100 dias, postarei aqui no Instragram fotos de 100 edifícios dos últimos 100 anos. Bati essas fotos ao longo dos últimos 10 ou 15 anos, com câmeras e celulares, e padronizarei todas em Preto e Branco. A ordem das publicações será randômica, sem organização de tempo/espaço. #100edificiosdosultimos100anos #100buildingsfromthelast100years

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13. Ele queria ir comigo visitar o monumento. Considerava um momento importante da sua vida ver um quarteirão inteiro no centro de Berlim tomado por aquelas lápides de concreto em memória dos mortos. Seria uma espécie de síntese da sua vida. O projeto atrasou. Ela ficou doente e ele não podia mais pegar um avião. Chamei-o algumas vezes, mas ele dizia que não podia deixa-la, mesmo por alguns dias. Ele morreu alguns anos mais tarde, sem nunca ter visitado o memorial de Eisenman. Fui algumas vezes e bati fotos para mostrar a ele. Uma dessas vezes, estava sozinho e cheguei de trem a Berlim. De alguma forma, talvez ele tenha vindo. Ou talvez ele já estivesse um pouquinho por lá. Ao longo de 100 dias, postarei aqui no Instragram fotos de 100 edifícios dos últimos 100 anos. Bati essas fotos ao longo dos últimos 10 ou 15 anos, com câmeras e celulares, e padronizarei todas em Preto e Branco. A ordem das publicações será randômica, sem organização de tempo/espaço. #100edificiosdosultimos100anos #100buildingsfromthelast100years

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12. Um pedacinho do eixo monumental de Brasília na periferia de Tokyo. Assim já haviam me descrito a biblioteca da Tama Art University, desenhada por Toyo Ito em 2005. Iwashi em lata: Apertados em um sedan Toyota conduzido por taxista de luvas brancas, a viagem durou horas (Dias? Anos? Décadas?). Nenhum arco é igual ao outro, nenhuma peça é igual a outra e os vãos são curvados. O piso térreo da biblioteca acompanha a topografia do entorno. Mondadori? Itamaraty? Diferentemente do Itamaraty, a biblioteca da Tama Art não é uma "caixa de milagres" com seus vazios internos surpreendentes. Coincidentemente, visitaria o Itamaraty com Toyo Ito, anos mais tarde. Não perguntei sobre a Tama Art Library naquele dia. Não tinha porquê. Toyo pareceu fascinado pelo edifício de Brasília e depois confessou que este era um dos seus prédios favoritos em Brasília. Ao longo de 100 dias, postarei aqui no Instragram fotos de 100 edifícios dos últimos 100 anos. Bati essas fotos ao longo dos últimos 10 ou 15 anos, com câmeras e celulares, e padronizarei todas em Preto e Branco. A ordem das publicações será randômica, sem organização de tempo/espaço. #100edificiosdosultimos100anos #100buildingsfromthelast100years

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11. Andar por Paris em busca das ruas e lugares de Cortazar. Admirar a estátua de Henry IV à noite; a la noche, cuando no hay nadie, esse canto solitário tem essa sensação de mistério, essa iminência de uma coisa que pode aparecer que o coloca en una situación que ya no tiene nada que ver con las categorías lógicas y los acontecimientos ordinarios. Entrar pela Rue de la Huchette e margear o Sena, até chegar na Pont des Arts onde namorados se protegem do vento. A noite avança. Os portões do Louvre estão abertos e as luzes da cidade acesas. Vejo as pirâmides e me aproximo. Não há ninguém. Nem vendedores de rosas. Nem artistas com seus piqueniques. Nem Maga. Sou a única pessoa na cidade. "... Caminhar pelas noites da nossa vida com a obediência do sangue no seu cego circuito. Quantas vezes me pergunto se isto não é mais do que escrita, numa época em que corremos para o engano entre equações infalíveis e máquinas de conformismos?" As luzes das pirâmides de I. M. Pei iluminam a fachada do museu. Para além desse programa duvidoso, admiro o projeto e sua coragem frente o monumento, precisamente recheado de Apple Stores e vendas subterrâneas de Souvenirs (os mesmos da Rue de La Huchette). Dali a algumas horas, aquela praça não estará mais deserta. Por agora, o silêncio e o vazio. E a melancolia da cidade iluminada e vazia. Não há nada. Como diziam alguns: Paris, o melhor cenário para as piores lembranças. Ao longo de 100 dias, postarei aqui no Instragram fotos de 100 edifícios dos últimos 100 anos. Bati essas fotos ao longo dos últimos 10 ou 15 anos, com câmeras e celulares, e padronizarei todas em Preto e Branco. A ordem das publicações será randômica, sem organização de tempo/espaço. #100edificiosdosultimos100anos #100buildingsfromthelast100years at Musée du Louvre

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10. Sentamos na poltrona Barcelona. Não era uma poltrona. Era o trono do Rei da Espanha. O segurança, incrédulo, mal conseguia reagir a tamanha insolência. Foi sem querer. Achamos que era só uma cadeira. Mal aê. Éramos jovens. O mesmo segurança tentava cobrar e controlar, histericamente, o acesso a um edifício que é aberto para o parque. Tenso. Impossível. Há algo de kitch no Pavilhão Barcelona. Justamente no Pavilhão Barcelona? Justamente em Mies? O mais sóbrio e solene dos arquitetos. Construído para a feira internacional de 1929, o projeto foi demolido após o evento. Nos anos 80, alguns arquitetos espanhóis julgaram por bem reconstruir o pavilhão de Mies, psicografá-lo. Enfim. Sei lá. Meio bizarro, meio kitch. O pavilhão que visitamos é uma reconstrução ipsis literis da obra "original" (o que esse termo significa? Não sei). Podemos entender o espaço pensado por Mies para esse pavilhão temporário, ver os detalhes, a coluna em X, a escultura e sua cuidadosa localização. Podemos sentar no trono do rei da Espanha. Ou não. Ao longo de 100 dias, postarei aqui no Instragram fotos de 100 edifícios dos últimos 100 anos. Bati essas fotos ao longo dos últimos 10 ou 15 anos, com câmeras e celulares, e padronizarei todas em Preto e Branco. A ordem das publicações será randômica, sem organização de tempo/espaço. #100edificiosdosultimos100anos #100buildingsfromthelast100years at Fundació Mies van der Rohe

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9. Encontramos-nos na Rússia e nunca nos separamos. Mentira. Foi em uma festa de São João. No Havaí. Em Moscou. Eu queria visitar a Shukhov Tower; ela queria estudar o clássico ângulo da foto de Rodchenko. Essa fantástica realização construtivista já corria em 2016 o risco de virar pó; ou melhor, um monte de ferro retorcido esperando para ser derretido. Praticamente todas as outras torres desenhadas por Vladimir Shukhov foram demolidas, e algumas nos últimos anos. A estrutura de Moscou resiste. Estava frio, rodamos quarteirões. Os 160 metros de altura feitos a partir de hiperbolóides conectados estão longe de ser um marco facilmente perceptível na paisagem contemporânea. A Torre Eiffel soviética está no meio de um terreno baldio, cercado, prioridade de uma empresa de telecomunicação. Ao contrário da Torre Eiffel, argumentaria Trotsky, a torre Shukhov já nascia com um propósito funcional: retransmitir sinais de rádio. Vladimir Shukhov já “existia” antes da revolução, um dos mais renomados engenheiros russos da virada do século. Ele tinha 65 anos quando a revolução aconteceu e projetou essa torre em 1919 (talvez seja a obra mais antiga dessa minha seleção de 100 obras...). A revolução se apropria de Shukhov e vice-versa. Em oposição ao monumento de Tatlin, inexequível naquele momento, a torre de rádio de Shukhov era pragmática. No entanto, a escassez de ferro na União Soviética naquele momento fez com que a altura da estrutura fosse reduzida pela metade. Estava frio. Voltamos ao metrô. Ao longo de 100 dias, postarei aqui no Instragram fotos de 100 edifícios dos últimos 100 anos. Bati essas fotos ao longo dos últimos 10 ou 15 anos, com câmeras e celulares, e padronizarei todas em Preto e Branco. A ordem das publicações será randômica, sem organização de tempo/espaço. #100edificiosdosultimos100anos #100buildingsfromthelast100years at Torre de Shukhov

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8. Cruzamos o Uruguai de ônibus. Uma estrada, uma linha perfeitamente reta na paisagem plana, com destino à Durazno (dizíamos na época, “uma cidade com nome de fruta”). Ou melhor, com destino à Igreja San Pedro (1969-71) de Eladio Dieste. Diferentemente da irmã famosa projetada pelo mesmo engenheiro, a Iglesia del Cristo Obrero – uma desconjuntada união formal de diferentes soluções estruturais –, San Pedro se define por um único gesto: finíssimas lâminas de alvenaria estrutural dobradas recompõe o interior demolido pelo fogo em 1967. A “resistência pela forma” se dá por dobras e superfícies planas e não por curvas. Dieste uniu as naves laterais à central, sem nenhuma interferência de pilares, em um espaço pleno de 32m por 23m. Qual é a espessura dessa lâmina da cobertura em ladrilho cerâmico? Quem dá menos? Dez centímetros? Oito centímetros! Oito centímetros para vencer um vão de 32 metros. E para tornar tudo mais ridicularmente incrível os elementos estruturais se descolam um dos outros; como se flutuassem, deixando vazios de luz natural. As conexões são praticamente invisíveis, recuadas, fora da curva de visão dos visitantes. Por fora, a igreja tem seu aspecto original, com proporções clássicas. Fomos questionados: "Vocês foram até Durazno?". Retrucamos: "Vocês nunca foram até Durazno?". A rosácea de anéis flutuantes de tijolo e o altar banhado por luz zenital. Saudades de Durazno. Ao longo de 100 dias, postarei aqui no Instragram fotos de 100 edifícios dos últimos 100 anos. Bati essas fotos ao longo dos últimos 10 ou 15 anos, com câmeras e celulares, e padronizarei todas em Preto e Branco. A ordem das publicações será randômica, sem organização de tempo/espaço. Para maiores informações, ver o primeiro post (Estádio de Braga). #100edificiosdosultimos100anos #100buildingsfromthelast100years at Durazno

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7. Uma das minhas memórias arquitetônicas mais antigas é do MASP. Quantos anos eu tinha? Quatro? Lembro-me de ver aqueles quadros flutuantes. Lembro-me de correr por entre os cavaletes de vidro e pensar: “Isso é muito legal! Esse é o museu mais legal de todo o mundo!”. E é mesmo. Talvez minhas memórias sejam imprecisas. Talvez esse dia nunca aconteceu. Recordo-me de ver as telas iluminadas pela luz natural. Lembro-me, mais tarde, também dos meus pais comentando sobre a destruição do museu. Não havia mais cavaletes de vidro. Não havia mais quadros flutuantes. A última vez que pisei no MASP nos anos 90 foi cinco ou seis anos depois, para ver a inesquecível mostra “O Brasil dos Viajantes”. O MASP se tornou um lugar triste. A maior estupidez daqueles que ocuparam o museu não seria trocar os materiais originais, levar a bilheteria para o térreo, cercar parte do vão livre ou colocar cafonas sistemas de iluminação. Tudo isso, de fato, soava horrível, mas o golpe de misericórdia seria renegar os cavaletes de vidro, como se fossem detalhes supérfluos da arquitetura, meros sistemas expositivos. Não compreenderam. Os cavaletes são a própria arquitetura de Lina Bo Bardi: um piso inteiramente livre, o grande vão do térreo multiplicado, com todas as obras em igualdade, em relação umas com as outras. A história da arte em um único olhar. Voltei em 2013 e vi a atmosfera deprimente do loteamento do espaço do último piso. Em 10 de dezembro de 2015, o museu em cativeiro se libertou. Bati a foto nesse dia: as janelas estão abertas, como em minhas antigas memórias e conforme pensadas pela arquiteta no projeto de 1958, algo que não pôde se repetir nos demais dias por causa da preservação das obras de arte. Esse textão evoluiria por 20 páginas, mas precisa acabar. O MASP poderia ter 100 fotos e 100 textos. Ao longo de 100 dias, postarei aqui no Instragram fotos de 100 edifícios dos últimos 100 anos. Bati essas fotos ao longo dos últimos 10 ou 15 anos, com câmeras e celulares, e padronizarei todas em Preto e Branco. A ordem das publicações será randômica, sem organização de tempo/espaço. #100edificiosdosultimos100anos #100buildingsfromthelast100years at Masp

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6. A Pampulha é uma espécie de Xeque do Pastor no Movimento Moderno: mal começava e já anunciava o seu fim; ou, ao menos, a sua subversão. E, quem diria, que isso viria de um lugar tão distante das bombas e trincheiras, de um lugar tão afastado e remoto? Niemeyer, entre 1940 e 1942, (1) inventou um novo país e (2) destruiu as mais profundas certezas europeias na arquitetura. Cassino e depois a Igreja. Em cada, uma pancada mais forte no estômago do racionalismo. Bem... Depois (esse “depois” são quinze dias, ok?) veio a apoteose, a micro apoteose. A Casa de Baile. A curva como divertimento. A Pampulha, estranhamente, me remete a Paulo Mendes da Rocha e não a Niemeyer. 2005. Fomos a Belo Horizonte para ver o edifício/terreno. Eu era estagiário no escritório do Paulo para um projeto de um Museu na Praça da Liberdade. Não era a minha primeira vez em BH, mas sim a última. Paulo não visitou a Pampulha conosco. Pouco antes, fomos comer em um restaurante lá perto, o Xapuri. Algumas caipirinhas e Paulo versava para os presentes (Secretária de Cultura e artistas renomados locais) sobre os fins éticos da arquitetura. “Sabe o quê deveria ter na Casa de Baile?” (até então fechada e os políticos na mesa ensaiavam uma conversinha mole sobre o destino do prédio) “Baile! Baile!!! Tem que ter baile na casa de baile! Não é baile chique. É baile popular”. Silêncio total. Todos chocados com um Paulo exaltado. E eu rindo e balançando a cabeça. Tem baile hoje lá? Ao longo de 100 dias, postarei aqui no Instragram fotos de 100 edifícios dos últimos 100 anos. Bati essas fotos ao longo dos últimos 10 ou 15 anos, com câmeras e celulares, e padronizarei todas em Preto e Branco. A ordem das publicações será randômica, sem organização de tempo/espaço. Para maiores informações, ver o primeiro post (Estádio de Braga). #100edificiosdosultimos100anos #100buildingsfromthelast100years at Lagoa da Pampulha

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4. Pegue uma via expressa (“L.A. is a great big freeway”), saia em uma avenida beira mar e depois em uma estreita rua local. No alto de uma pequena colina, coberta por uma densa vegetação, eis que surge, no meio de uma clareira, a Case Study Nº 8, conhecida também como Eames House. A casa construída pelo casal Eames para eles próprios em 1949 próximo de Santa Monica surfava no desafio lançado pela revista californiana Arts & Architecture de fazer habitações unifamiliares reproduzíveis em série com elementos industrializados. Essa experiência (a oitava publicada pela revista) impressiona pela leveza da estrutura e de todos os elementos construtivos; em sua maioria, perfis de aço unidos em uma espécie de quebra-cabeça arquitetônico. Tudo soa esbelto, dos caixilhos metálicos aos elegantes contraventamentos em X. A casa (hoje uma fundação que cuida das obras dos Eames) estava fechada nesse dia de 2005. Lembro-me apenas de espiarmos por entre as cortinas e enxergarmos uma espécie de espaço congelado no tempo, como se o casal Eames tivesse acabado de sair e deixado o café em cima da mesa; como se essa espiada pela cortina nos levasse para outro tempo. Ao longo de 100 dias, postarei aqui no Instragram fotos de 100 edifícios dos últimos 100 anos. Bati essas fotos ao longo dos últimos 10 ou 15 anos, com câmeras e celulares, e padronizarei todas em Preto e Branco. A ordem das publicações será randômica, sem organização de tempo/espaço. Para maiores informações, ver o primeiro post (Estádio de Braga). #100edificiosdosultimos100anos #100buildingsfromthelast100years

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3. O segundo andar da Schröder House de Gerrit Rietveld foi uma das experiências arquitetônicas mais fortes que tive na vida, pelo menos com arquitetura moderna. Se no térreo o arquiteto projetou uma casa convencional, com espessas paredes de alvenaria e espaços enclausurados, no andar superior todas as divisórias são deslizantes, em uma planta completamente livre. Rietveld fez isso em 1924 (!) e parece anunciar a superação dos velhos modos de habitar, exemplificando tanto o velho (térreo), quanto o novo (superior). O “estilo” (De Stijl) hoje facilmente associado a Mondrian, aqui encontra uma versão, construída, tridimensional. As paredes (planos) deslizantes colaboram com essa sensação de se habitar uma pintura. Preto, branco, vermelho, amarelo, e azul, além de cinzas (azulados) compõe a paleta de cores internas e externas e todos os detalhes e móveis foram feitos dentro da lógica de formas geométricas pintadas com essas cores primárias. Por fora, chama a atenção o viaduto que passou raspando na casa décadas mais tardes (em 1963, e de fato por um triz não destituiu essa obra prima holandesa). Apesar de eu ter morado nos Países Baixos, passei pela casa apenas duas vezes (e antes da minha estadia por lá), em 2005 e 2010. Na primeira vez, um grupo de estudantes gravava um filme dentro e não conseguimos entrar. Nessa foto de 2010, chama a atenção a relação da casa com a vizinha, construída provavelmente na mesma época (senão posteriormente). Ao longo de 100 dias, postarei aqui no Instragram fotos de 100 edifícios dos últimos 100 anos. Bati essas fotos ao longo dos últimos 10 ou 15 anos, com câmeras e celulares, e padronizarei todas em Preto e Branco. A ordem das publicações será randômica, sem organização de tempo/espaço. #100edificiosdosultimos100anos #100buildingsfromthelast100years at Casa Rietveld Schröder

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2. O caseiro abriu a porta da casa e falou, para nossa frustração: “O Oscar acabou de sair daqui”. Foi a primeira e única vez que visitei a Casa das Canoas, em 2005, quando Niemeyer tinha 98 anos. E também o mais próximo que cheguei dele. Não havíamos marcado, mas parece que ele coincidentemente tinha uma entrevista no local. Minha geração não viu palestras e aulas de Oscar em SP (ele já estava velho para viajar e o medo de avião afastava qualquer possibilidade). A delicadeza como a casa toca a paisagem, se esgueirando pelas árvores, se apoiando nas pedras, parece ser a característica mais forte dessa obra. No andar superior, uma piscina e uma marquise com suas formas sinuosas delimitadas, basicamente, a partir de retas e segmentos de circunferências. A delicadeza do detalhamento do caixilho constrói a fluidez espacial entre interior e exterior. O programa íntimo fica no andar inferior, que sofreu uma desastrosa reforma nos anos 70 ou 80, quando o próprio arquiteto inseriu bizarras janelas chanfradas. Ao longo de 100 dias, postarei aqui no Instragram fotos de 100 edifícios dos últimos 100 anos. Bati essas fotos ao longo dos últimos 10 ou 15 anos, com câmeras e celulares, e padronizarei todas em Preto e Branco. A ordem das publicações será randômica, sem organização de tempo/espaço. Para maiores informações, ver o primeiro post (Estádio de Braga). #100edificiosdosultimos100anos #100buildingsfromthelast100years at Casa das Canoas

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@gabrielkogan

Nos próximos 100 dias, postarei aqui no Instragram fotos de 100 edifícios dos últimos 100 anos. Bati essas fotos ao longo dos últimos 10 ou 15 anos, com câmeras e celulares. Algumas dessas fotografias são meros registros de viagens, na época em que a tecnologia da fotografia digital ainda não parecia bem resolvida. Resolvi padronizar todas as fotos para Preto e Branco e, em muitas, recorri a tratamento de ruídos. Inicialmente, pensei que seria difícil alcançar o número de 100 edifícios. Mas logo me vi forçado a fazer uma seleção, um recorte. Mais do que fundamentais para a história da arquitetura moderna e contemporânea, esses espaços foram fundamentais para mim e de alguma forma me impactaram. Há lacunas claras: La Tourette ou Marselha (Le Corbusier), Casa das Cascata (Wright), a Casa de Vidro (Philip Johnson), as obras de Sverre Fehn ou Sigurd Lewerentz, ou mesmo projetos contemporâneos de Peter Zumthor. Por outro lado, por razões óbvias, há uma preponderância de projetos brasileiros. Por que estou fazendo isso? Talvez seja uma forma de diário, diário do passado, sobre arquitetura e viagens; talvez uma forma de recuperar e salvar arquivos; talvez apenas uma forma de reestudar e reescrever sobre arquitetura. A ordem das publicações será randômica, sem organização de tempo/espaço. 1. Começo pelo Estádio de Braga, de Eduardo Souto de Moura, uma das minhas melhores lembranças de Portugal. Foto de janeiro de 2012. O edifício parece brotar da antiga pedreira, em uma espécie de processo metabólico no qual a natureza, as rochas – transformadas em produto – retornam ao local como concreto; como uma segunda natureza, artificial. Nesse elemento de coleta de águas pluviais, o arquiteto recupera poeticamente a relação cíclica entre o ser-humano e ambiente. A distância entre a calha na cobertura e essa gárgola-às-avessas explicita a presença das águas, e a forma como são conduzidas de volta a terra. Eduardo mereceu o Pritzker por essa obra. Sem dúvida. Chegamos de comboio a Braga. O tour, conduzido por um roupeiro do time, esvaziava por completo o significado daquela arquitetura que, claro, resistia. #100edificiosdosultimos100anos #100buildingsfromthelast100years at Estádio Municipal de Braga

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